Thursday, October 19, 2017

Tokyo [Anos 70]


Eu escolhi, há dez anos, o terreno de meus sonhos (ou melhor, dos sonhos de minha mulher!), num subúrbio a noroeste de Tóquio, perto de Ikebukuro, um dos grandes centros comerciais da capital. Fiz eu mesmo o projeto da casa: como os de minhas fábricas, em função dos hábitos e exigências de todos os que iriam utilizá-la. Vivemos bem longe do palácio imperial, a cerca de uma hora do centro da cidade. Mas, em Tóquio, as pessoas têm o hábito de percorrer longas distâncias até suas casas e me pareceu justo que um fabricante de automóveis se sujeitasse, todos os dias, aos engarrafamentos. De fato, estou a meio caminho — mas que caminho! — entre meus laboratórios e meus escritórios. Gosto do meu bairro, pois lembra todas as cidades que conheci desde a infância: a Tokyo de meus primeiros tempos de aprendiz de mecânico, mas também minha pequena Hamamatsu, com seu ar empertigado de capital de província. Em Tokyo, todos os bairros, isolados uns dos outros, parecem aldeias. Podemos até esquecer a cidade que os congrega e torna desumano tal ajuntamento. As ruas são estreitas e ladeadas de pequenas lojas, coloridas de flores plásticas, permanentemente com ar de festa. A estação do trem de subúrbio é o centro do bairro. Lá se concentra o comércio, para atrair os trabalhadores na volta do trabalho, todos os dias, à mesma hora.

Os vendedores de frutas e legumes espalham suas mercadorias na calçada, os montes de laranjas e tangerinas atravancam o caminho. As outras barracas vendem de tudo: quinquilharias, peixes, pastéis. Há tantos odores misturados que pode-se andar guiado pelo olfato. No andar superior dos pequenos sobrados de madeira, vivem os comerciantes e suas famílias, supervisionando seus negócios, como na velha casa onde nasci. Os restaurantes do bairro, para melhor informar o consumidor, expõem em suas vitrinas reproduções, em matéria plástica, dos pratos constantes do cardápio. Existem bons bares, mantidos por velhas megeras que conheço bem, mas outros execráveis, com um jeito meio americano. Os únicos edifícios altos e sólidos são os que abrigam as escolas. Meninos de uniforme preto, quase militar, meninas de saia azul-marinho, com um arzinho ordeiro que me deixa preocupado. Não gosto muito de disciplina com as crianças. Temo que ela mate, ainda no broto, os sonhos e os potenciais ainda não revelados.

Não estamos no campo. Longe disso. A cidade ainda continua por mais cinquenta quilômetros. Mas algumas árvores ultrapassam as muretas. A natureza, no Japão, tem um vigor de selva. Ela fura qualquer superfície de concreto, desde que a alimentem com um pouquinho de espaço aberto.

Minha casa é bem grande, mas não imensa. Eu a quis moderna e sem pretensões; aberta, é claro, para um jardim que eu amo. As paredes são revestidas de madeira. Tenho pavor de concreto nu. É muito duro. Criei minha casa em seus menores detalhes. Minha mulher contentou-se em cuidar da decoração — com a condição de que esta fosse em madeira — e da organização da cozinha. Os aposentos deveriam ser claros e nus. No Japão, não nos atravancamos com móveis. Não existem mesas ou cadeiras, pois preferimos ficar de joelhos (ou, mais exatamente, agachados sobre os calcanhares). Vivemos como em um acampamento improvisado, com baús e colchões estendidos no chão, com os tesouros escondidos e mostrados às vezes, aos amigos. Em princípio, nas casas japonesas, nenhum cômodo tem uma finalidade específica. As divisões são móveis e permitem isolar, à vontade, aposentos de estar, de dormir, de hóspedes. Sempre pensei ser esse o conceito mais funcional da arquitetura. Talvez não se tenha tentado estudar a adaptação dos modelos tradicionais às necessidades modernas. Isso permitiria, no entanto, uma utilização melhor de espaço, do que nessas reconstituições moldadas em concreto, de pequenos e pretensiosos palácios de Versalhes, que acabam sendo nossos modernos apartamentos.

(texto de Soichiro Honda)

No comments:

Post a Comment

Support your favourite artist. Buy at: